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terça-feira, 20 de outubro de 2015

Perversões e parafilias

Uma leitura psicanalítica da trilogia "50 Tons de Cinza"
Capítulo 3: PERVERSÕES E PARAFILIAS



Laplanche e Pontalis (1992, p. 341) definem perversão como sendo o:

Desvio em relação ao ato sexual normal, definido este como coito que visa a obtenção do orgasmo por penetração genital, com uma pessoa do sexo oposto. Diz-se haver perversão: onde o orgasmo é alcançado com outros objetos sexuais ou através de outras regiões do corpo onde o orgasmo acha-se totalmente subordinado a certas condições extrínsecas, que podem mesmo ser suficientes, em si mesmas, para ocasionar prazer sexual. Num sentido mais abrangente, perversão tem a conotação da totalidade do comportamento psicossexual que acompanha tais meios atípicos de obter-se prazer sexual.

Ressalta-se que na mesma publicação há um novo dado, onde:

Em 1987, sem a menor discussão teórica, o termo perversão desapareceu da termologia psiquiátrica mundial e foi substituído por parafilia, na qual não mais se incluiu a homossexualidade. [...] Freud conservou o termo para designar os comportamentos sexuais desviantes em relação a uma norma estrutural (e não mais social) e nela incluiu a homossexualidade, da qual fez uma perversão do objeto caracterizada por uma fixação da sexualidade numa inclinação bissexual.

            Logo em seguida, em 1990, a Organização Mundial da Saúde – OMS, retirou da homossexualidade a condição de patologia. A partir deste tema, pode-se observar como Freud estava além do seu tempo. O médico, ao observar não somente o padrão imposto socialmente da época, ia além da medicina tradicional.
            Mais uma vez, fica claro que o prazer, para a psicanálise, está muito além de um ato físico, seja para o homem ou para a mulher – e independente deste prazer ser procurado e sentido na unidade do próprio sujeito, com uma ou mais pessoas, também aceitando a presença de objetos. Pode-se dizer, então, que, todo sujeito possui um lado perverso – ao menos no âmbito sexual.
            Sobre a parafilia principal apresenta aqui neste trabalho, o sadomasoquismo, Freud (1905 [1974], p. 149) sustenta que:

A particularidade mais notável dessa perversão reside (...) em que suas formas ativa e passiva costumam encontrar-se juntas numa mesma pessoa. Quem sente prazer em provocar dor no outro na relação sexual é também capaz de gozar, com prazer, de qualquer dor que possa extrair das relações sexuais. O sádico é sempre e ao mesmo tempo um masoquista, ainda que o aspecto ativo ou passivo da perversão possa ter-se desenvolvido nele com maior intensidade e represente sua atividade sexual predominante.

            Esta definição dada por Freud costuma frustrar um tanto quanto aqueles que se intitulam sadistas ou masoquistas, afinal, na prática, direta, consideram-se adeptos de uma única fonte de prazer, onde, na verdade, o prazer está ligado a diversos objetos – considerando pessoas e itens inanimados realmente.
            O desejo pela dor – sofrer ou causar – não está somente na dor física, mas, na necessidade em punir ou ser punido presente no inconsciente do indivíduo. As marcas deixadas na pele e os riscos corridos durante a prática fazem parte do universo dos perversos. Aqui, o prazer não é somente físico, assim como o sofrimento. A degradação, muito citada em Sade, é grande estimulante para os praticantes do sadomasoquismo – colocar o outro em situação de risco ou humilhante, exalta a necessidade da busca pelo poder em um âmbito que pode ser conquistado.
            Sade, um rico marquês francês, tinha ao seu alcance dinheiro e poder, mesmo assim, era adepto das práticas perversas sexuais. Ele buscava algo diferente do que estava lhe sendo ofertado com facilidade, seu consciente estava satisfeito, porém, ele ainda sentia uma falta, um vazio, este que foi preenchido com o sadomasoquismo entre outras fantasias e desejos colocados em prática com homens e mulheres.
            Para Freud, (2007 [1924], p.111):
             
O masoquismo moral caracteriza-se principalmente pelo fato de que nela se afrouxa a relação com o que habitualmente reconheceríamos como pertencente ao campo da sexualidade. Nele não encontramos a condição básica de todos os outros sofrimentos masoquistas, isto é, que eles sejam causados pela pessoa amada e suportados somente porque se emanam. Aqui é o sofrimento que importa, parta ele da pessoa amada ou de uma figura qualquer. Ele pode ser provocado por forças ou contingencias impessoais. Não faz a menor diferença, o verdadeiro masoquista, sempre que houver oportunidade, oferecerá a outra face. Assim, parece evidente que, neste caso, deveríamos deixar a libido de lado e nos restringirmos à suposição de que aqui a pulsão de destruição foi novamente redirecionada para dentro e atua violentamente contra o próprio Si-mesmo [Selbst]. Por outro lado, não devemos deixar de notar que, no uso linguístico corrente não se afrouxou a conexão desta forma de comportamento com o erotismo, pois se designa também essas pessoas auto-destrutivas de masoquistas.

Conforme já citado, e reforçado a partir de Freud, o masoquista busca o sofrimento quando vê oportunidade, ele sente a necessidade de punição, de ser castigado – este desejo está ligado a fase infantil do Complexo de Édipo e da castração. Para a psicanálise, toda a energia tem origem na libido, ou seja, todo ato e desejo possui um caráter sexual – mesmo que inconsciente e/ ou sublimado. Ressalta-se, que, para a psicanálise, sexual não está diretamente ligado com sexo. A libido busca o prazer, seja ele sexual, profissional, ou qualquer tipo de reconhecimento, esporte, entre outros – afinal, cada indivíduo é único, assim como seus desejos.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O Ego e o poder do Outro

                                           Imagem: Reprodução Internet

A palavra Ego, no senso comum, é normalmente aplicada quando se faz referência ao mais íntimo de um indivíduo. Na psicanálise é semelhante, porém, muito mais complexo. O Ego trabalha juntamente com o Id e o Superego. É dele a tarefa de mediar os desejos e proibições. Enquanto o Id nasce com o indivíduo e representa seus desejos, o Ego e o Superego – este segundo, principalmente – são constantemente transformados a partir das experiências sofridas pelo indivíduo.

O Ego inicia sua formação, e sua parte mais importante – sua base – logo na infância, por isso a fase necessita de tamanha atenção. Atenção não é sinônimo de superproteção e excesso de amor. Desde a infância o indivíduo, no caso, a criança, precisa vivenciar diversos tipos de experiências, sejam elas prazerosas e desprazerosas. Algumas são da natureza humana, como, por exemplo – a partir de Melanie Klein, a descoberta de que ela e sua mãe não são um único ser e o ato de alimentar-se, que, apesar da ajuda de um outro, a atividade depende do próprio indivíduo que busca saciar sua fome.

Muitos pais e cuidadores buscam evitar a frustração nas crianças, porém, estas tendem a crescer adultos infantis, afinal, somente na fase seguinte, a adulta, estarão sujeitos a experiências que lhes foram privadas na infância, assim, ele tende a manter uma visão infantil dos ocorridos, afinal, são algo novo para ele.

A partir da formação do Ego, o indivíduo passa a considerar-se um indivíduo real, separado dos demais integrantes de sua família. Para este processo, é necessária muita atenção durante o momento de castração – complexo de Édipo – independente do filho homem ou mulher. Ambos devem estar cientes do papel o qual cada um representa na instituição familiar.

Perante as novas formulações de família, há certas diferenças, porém, estes papeis sempre existem. No caso, o pai é a figura castradora, aquele que faz o rompimento da criança com a mãe, aquele que se coloca entre a relação dos dois. Não, necessariamente, a figura do pai precisa ser um homem, nem, tão pouco, a figura da mãe precisa ser a genitora. Apenas, naquela estrutura familiar, os presentes necessitam assumir determinados papeis.

A ausência de Ego ou um Ego frágil, pode tornar um indivíduo psicótico ou neurótico. Ao não ter sofrido esta ruptura da castração, ele não é inserido na realidade, assim, acredita que tudo pode, não tendo desenvolvido sua capacidade de aceitação a normas externas. Bem como, o Ego frágil torna-se suscetível a interiorizar um Ego externo, aceitando, facilmente, ter sua subjetividade ignorada e passar a acreditar no Outro.


Freud aborda a figura do Outro, neste caso, como aqueles sujeitos que se destacam em grandes massas através de seus discursos – seja ele político ou religioso, por exemplo. Enquanto os seguidores, aqueles que acreditam em dizeres milagrosos sem nenhum fundamento ou aplicação a realidade na qual está sendo pregado, são aqueles que possuem um Ego frágil, incapaz de acreditar e confiar em suas próprias escolhas, necessitando de um ditador externo para ordenar suas atitudes e posicionamentos.